Entenda como as crianças assimilam os papéis de gênero e qual o papel da escola e das famílias em minimizar as desigualdades
Uma dúvida comum em mães, pais e cuidadores de crianças pequenas e adolescentes é se elas têm idade suficiente para aprender sobre aspectos relacionado à gênero. Ou melhor, se é o momento ideal para trazer um tema tão delicado à tona!
Será? Essa é uma dúvida importante e valiosa para começarmos essa reflexão.
Será que crianças devem ser expostas à questões de gênero? E o que isso quer dizer, no caso de escolas optarem por trazer essa perspectiva para sua proposta pedagógica e administrativa? Como isso pode afetar as crianças e as famílias?
Neste conteúdo, abordamos os aspectos fundamentais para refletirmos sobre a relevância do gênero na educação de crianças, mesmo as menores, e quais formas seguras e adequadas podemos lançar mão quando estamos lidando com elas!
Gênero e crianças: como esses temas se relacionam?
Nos últimos anos, uma grande “caça às bruxas” foi empregada para combater o uso do termo gênero em assuntos relacionados às escolas e às crianças. Recorrendo a temas como “ideologia de gênero”, grupos tradicionalistas reivindicaram que o tema deve ser alheio à escola, e que espaço educacional não é lugar de ensinar as crianças sobre os papéis de gênero.
Ocorre, contudo, que a sociedade em que vivemos é socialmente estruturada e hierarquizada sobre esses papeis. Pessoas do gênero feminino, por nascimento ou transição, são mais associadas a assuntos como amor, cuidado, limpeza, gentileza, beleza, sentimentos, etc. E, com isso, mais associadas a determinadas profissões, tarefas e responsabilidades na família, fora dela e com as aparências físicas.
Também são reforçadas a ocuparem um lugar de baixa exposição ao risco (evitar erros e atos de coragem), sendo constantemente convidadas a comportamentos passivos, silenciosos e guiados para agradar o outro.
Essas expectativas aparecem desde cedo, em comentários clássicos como “mocinhas sentam e ficam quietinhas”, ou “menina bonita não chora”.

Ao mesmo tempo, pessoas do gênero masculino são frequentemente associadas às tarefas que envolvem força e raciocínio, especialmente lógico-matemático, e atividades que envolvam riscos, coragem e exposição.
Dos meninos, esperam que corram e se sujem, queiram fazer tarefas manuais de conserto e atividades com aventura, mas que evitem emoções e sensibilidades associadas às meninas (chorar, pedir ajuda, ser mais quieto, etc.).
Como a sociedade contribui para reforçar as desigualdades de gênero?
Ocorre que é na infância que as crianças estão desenvolvendo suas habilidades socioemocionais. Uma criança de dois anos, independente de seu gênero, será curiosa e terá desejo em explorar seu entorno.
Ela irá descobrir suas habilidades físicas exercitando-as dia após dia. Sua coordenação motora se refletirá em sua vida psíquica e, só por isso, já seria valioso criar condições para toda criança explorar o ambiente de forma segura – sem limitá-las pelo gênero ou personalidade.

Ainda assim, cada criança tem tendências a determinados comportamentos (moldados pelos seus genes, temperamento e ambiente). Seja ela mais propensa a atos de coragem ou práticas de de contemplação, isso não diz respeito a seu gênero.
Um menino que seja mais quieto, que goste de analisar as flores, contemplar os pássaros e desenhar, e ainda assim corra e brinque de pirata, pode sofrer reprimendas frequentes nos momentos em que assume um comportamento mais passivo ou choroso.
Uma menina que adore ver filmes, e também ame correr livremente no parque e sujar suas roupas para explorar a terra, por outro lado, pode ser reiteradamente convidada a se “comportar melhor”. Se ela chorar e for silenciada, ela entenderá também que suas emoções não tem espaço seguro para serem expressadas – vai sofrer em silêncio.
Neste processo, vão sendo moldadas pelo exterior para se adequarem àquilo que é esperado tanto de uma menina quanto de um menino.
Em que idade as crianças aprendem sobre gênero?
Além das orientações verbais a que muitos adultos recorrem, muito do que as crianças aprendem ocorre por meio da observação. Na realidade, até que dominem a linguagem, as crianças vão construindo seu caráter ao observar como sua mãe, pai e outros cuidadores (avós, tias, primos, babás) reagem ao seu comportamento e com o entorno.
Segundo Maria Montessori, somente após os seis anos é possível ensinar valores do modo formal, pelo discurso e a reflexão. Anteriormente, as crianças estão adquirindo repertório social e aculturação a partir do que ocorre em seu ambiente e com aquelas pessoas que a cuidam. Segundo ela, as crianças tem uma mente absorvente.
“A adaptação ao ambiente se dá nos primeiros seis anos: é aqui, portanto, que reside a origem do caráter humano”
(Montessori, 195, 1948 [2021]).
Já o psicanalista e pediatra Donald Winnicott, a partir do conceito de “ambiente suficientemente bom”, elabora sobre como o entorno e as pessoas nele envolvidas, criam as condições para a maturidade deste bebê ou criança pequena.
É na relação com o ambiente (cuidadoras e espaço físico) que irão desenvolver um senso de “eu” e a personalidade. Esse desenvolvimento ocorre sob a influência de seu contexto cultural e dos valores que guiam essas pessoas responsáveis. Então, não seria neste momento que os pilares e as hierarquias de gênero estão sendo justamente reforçados?
Quais tipos de valores sobre gênero queremos ensinar às crianças? Não devemos refletir como ensinar as crianças sobre gênero ainda na primeira infância?
Como as famílias contribuem (e podem contribuir) para as percepções infantis sobre gênero?
Considerando que as crianças aprendem pela observação de adultos e crianças mais velhas em seu entorno, é a partir do exemplo e da imitação que elas assimilam o conhecimento. Nas brincadeiras, por sua vez, elas elaboram essas relações sociais e podem explorar papéis em suas fantasias e junto a seus brinquedos.
Pessoas responsáveis por crianças pequenas percebem que elas assimilam hábitos específicos de seus cuidadores, sejam palavras comumente ditas, gestos ou mesmo trejeitos facilmente associáveis à determinadas pessoas.
Portanto, a questão que não é se crianças pequenas podem ou devem aprender sobre gênero e divisão por papéis sociais entre homens e mulheres. Sim, como e o que elas já estão aprendendo.
No caso do gênero e da divisão dos papéis sociais entre homens e mulheres, meninas e meninos, as crianças pequenas estão acumulando saberes desde o princípio – ainda que não seja racionalizado e feito de modo consciente.
Elas sabem que vivem em comunidade e que dependem de pessoas mais velhas para sobreviver (o cérebro reptiliano explica esse senso de sobrevivência). Sendo seres sociais, esses humanos curiosos tendem a produzir comportamentos aceitáveis para seu entorno: vão se enquadrando para serem amados e cuidados, conforme seus comportamentos surtam resultados.
A partir das contribuições de Winnicott, podemos entender que a personalidade da criança e seu desenvolvimento saudável estão diretamente relacionado à capacidade do ambiente de gerar uma segurança em que a confiança seja mantida.
Mas, se as crianças, a partir de regras sociais de gênero, estão sendo constantemente moldadas contra sua personalidade, ou ainda forçadas a se conformarem em determinados comportamentos, sobre prejuízo de sua saúde mental, esse desenvolvimento será prejudicado. Elas não sentirão confiança de se expressar, explorar e conhecer as possibilidades que o mundo lhes oferece.
É nesta equação que assimilam normas de gênero, que nem sempre passam por reforços na linguagem verbal, como por exemplo dizer “menina não pode brincar de carrinho”, “menino não pode brincar de boneca”, “menina veste rosa”, “menino veste azul”.
Uma família ou uma escola pode não verbalizar regras e divisões por gênero, e ainda assim, a criança irá assimilar alguns comportamentos sutis e, por vezes, não conscientes dos adultos no entorno.
Como a divisão de papéis de gênero ocorre na prática?
Pais e mães geralmente costumam dividir suas responsabilidades – em famílias LGBT+ essas divisões também ocorrem, com outras nuances. Nem sempre essa divisão passa por um processo consciente e verbalizado, ainda que muitas famílias assim o façam.
Muitas vezes, a divisão é naturalizada, a partir daquilo que se entende que “mulheres fazem melhor” e “homens fazem melhor” – aspectos que são moldados culturalmente pela sociedade, e que podem ser assimilados também por famílias LGBT+.
Aquelas famílias que têm divisões claras ou mais rígidas de seus papéis (pelos quais apenas as mulheres exercem o cuidado, o afeto e o acompanhamento escolar, e os homens ficam responsáveis por tarefas realizadas fora de casa e não associadas à cuidados), vão consolidando essa perspectiva para uma criança em constante aprendizagem sobre como o mundo funciona.

O mesmo é válido para famílias cujas pessoas que realizam o cuidado cotidiano, como lavar, passar e cozinhar, ou o cuidado de bebês (babás, etc), sejam apenas mulheres – muito vezes, negras. Essas premissas vão se tornando “a realidade” e não “uma realidade” dentro das possíveis.
Isso não quer dizer que o que professoras, mães e pais estão educando de forma errada ou repreensível, mas sim que esse processo de aculturação, dentro de um modo de se comportar a partir do gênero (e racial), já está em andamento.
Deixar para pensar a respeito dessas divisões e como elas reforçam sofrimentos (em nível subjetivo) e desigualdades (em nível coletivo) somente quando as crianças forem crescidas ou já em idade jovem, é forçá-las a, no futuro, precisarem rever uma grande gama de comportamentos e modos de pensar já assimilados.
Como a escola pode instruir de forma mais igualitária e contribuir para a transformação social?

Consideramos a escola como ambiente responsável por partilhar o mundo público com as crianças.
Se a família educa a partir de seus valores mais íntimos e subjetivamente escolhidos, ou até naturalizados, a escola possui o dever de preparar as crianças para o convívio em sociedade e a atuação cooperativa com o mundo, e refletir sobre os comportamentos e as propostas pedagógicas.
Portanto, é dever do projeto político-pedagógico educar as crianças para um convívio que respeite as diferenças entre as pessoas – de gênero, raça, sexualidade, classe, nacionalidade, etc.
Além disso, a escola deve contribuir para que comportamentos que limitem suas possibilidades de existência e de vida sejam revistos. Incentivar as crianças a sonharem e a também a agirem no entorno, de forma que o bem comum seja valorizado, e que suas personalidades aflorem independentemente das restrições sociais que a divisão de gênero podem querer impor.
Outras formas da escola atuar para reduzir as desigualdades de gênero
A escola deve ser espaço de promoção de pensamento crítico. Se em outros ambientes as crianças são frequentemente ensinadas que:
- Menino não chora e que é seu desejo vale mais do que o de uma menina;
- Meninas devem agradar as pessoas aos custos de sua saúde mental ou vitalidade;
- Brincadeiras de cuidado são exclusivamente responsabilidade das meninas – e que somente as mulheres tem habilidades como de cuidar e de amar;
- Brincadeiras de combate e aventura são exclusivamente de meninos – e os homens são os únicos hábeis a atividades de força física e pensamento crítico, e devem esperar o cuidado feminino…
…Então, é dever da escola revisitar essas premissas e promover uma educação propositiva, democrática e para a autonomia, que atue conscientemente para minimizar essas premissas produtoras de desigualdade social e opressões de gênero.
Uma menina pode e deve explorar seus saberes e habilidades únicos, com coragem e sendo convidada a errar em um ambiente seguro e protegido, como o espaço escolar. Ela deve poder reconhecer aquilo que quer desenvolver melhor, sem que isso recaia em uma normativa de gênero (ou em expectativas de comportamento por ser menina).
Ela deve construir sua autoestima para além da noção da beleza física ou do comportamento mais submisso, e ainda não precisar justificar seu jeito de ser, caso suas atitudes infantis não caibam nessas expectativas de gênero.
O mesmo vale para os meninos, que precisam do espaço escolar para descobrir suas possibilidades e explorar o mundo criativamente. E, não menos importante, entender suas emoções e aprender a lidar com as frustrações (dando vazão a toda possibilidade de ser humano, muito além de ser um menino).
Para além dos moldes de gênero, o menino deve desenvolver as habilidades de cuidar de outras pessoas e de si mesmo, de acordo com as condições de sua idade e maturidade, como todo ser humano.
Afinal, a humanidade é interdependente e vive em comunidades que necessitam de cuidados permanentes – seja na alimentação, na limpeza e na higiene, seja nos afetos.
Consultoria em educação, direitos humanos e diversidade
Ainda assim, sabemos que a escola, muitas vezes, está preocupada com várias outras demandas concorrentes e igualmente urgentes para manter um bom funcionamento.
Pode acabar passando batido a necessidade de cuidar desses aspectos pedagógicos, mesmo em escolas que estão comprometidas com a democracia e o bem comum.
Nestes casos, uma Consultoria em Educação, Direitos humanos e Diversidade pode contribuir.
Sem a necessidade de incorporar uma equipe dedicada à diversidade e ao combate às desigualdades de gênero, com a Consultoria educacional, a escola pode ser orientada a respeito de seu currículo, atividades pedagógicas e outras práticas cotidianas para garantir que essas temáticas sejam assimiladas, dentro do seu contexto e de suas políticas.
A escola também pode pedir um acompanhamento com círculos de conversa e espaços de sensibilização para que as famílias acompanhem e contribuam com as reflexões sobre as desigualdades de gênero. A tendência é que toda a comunidade seja convidada a fazer reflexões críticas e propositivas para a transformação social.
Para conhecer mais sobre serviços de consultoria em direitos humanos para escolas, e promover uma educação sobre gênero segura e coerente com a idade e o momento do desenvolvimento, acesse esse link.
Veja quais opções podem atender as necessidades de sua instituição. Vamos juntos transformar as escolas em territórios de libertação!


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