Brincar: um exercício de liberdade nas infâncias

A brincadeira contribui para a subjetividade de cada criança. Respeitar essa linguagem e não limitar sua criatividade é um exercício democrático muito valioso. Entenda!


A brincadeira se trata de uma ação que ocorre no presente, que não requer intencionalidade ou propósito. Ela é frequentemente realizada de forma espontânea, especialmente por bebês e crianças, sem muita previsão ou objetivo.

Ainda que a gente acredite que toda brincadeira tem uma finalidade, o livre brincar é um exercício de lazer, diversão, deleite e fruição, onde o espaço para a fantasia e a imaginação supera quaisquer motivações práticas e planejamentos bem calculados.

Neste artigo, exploramos como a brincadeira pode contribuir para novas relações com o mundo e a porque o respeito à essa linguagem é uma prática democrática a ser empregada pelos adultos. Confira!

Brincar: para quê?

Na infância, o aspecto lúdico se manifesta como lazer e fruição. São experimentações que as crianças fazem, sem compromissos, para explorar seus limites e desafiá-los, conhecer suas capacidades e desafiá-las, se engajar com os outros e passar o tempo.

Não atoa, se estão se sentindo entediadas, logo começam a inventar brincadeiras com qualquer coisa que tiver ao redor.

Elas são mestras em recorrer à fantasia e à imaginação, pois o brincar é uma das suas linguagens mais básicas e fundamentais, próprias de seu reino infantil (Kohan, 2005) – reino onde habitam, longe das linguagens dos adultos.

No brincar livre, a criança explora sua humanidade e traz novidade para o mundo.

Mesmo sem buscar alcançar certo desenvolvimento de alguma habilidade (emocional, cognitiva, simbólica), ao explorar suas possibilidades e seu corpo, brincar com o ambiente e os objetos, ela necessariamente amplia seus saberes sobre si, sobre o outro e sobre o mundo (animado e inanimado).

Mesmo sem querer.

Pensando sobre o brincar infantil

Ao longo das décadas, diversas áreas do conhecimento se debruçaram sobre o brincar: antropologia, sociologia, psicologia, pedagogia, filosofia, etologia, para citar algumas. Cada uma, com uma contribuição valiosa para entendermos esse recurso que é tão característico dos seres vivos, mas tão associado à infância humana.

Uma das reflexões que vem sendo promovidas é a contestação do objetivo produtivo e funcionalista das brincadeiras, especialmente quando imposto a todo tempo e sob qualquer custo.

No mundo adulto, a prática lúdica vai se tornando cada vez mais intencional, pois muitos de nós acreditamos na necessidade de funções e propósitos produtivos para justificar nossas ações. Recorremos a jogos que ensinem, atividades que desenvolvam o pensamento lógico, ou videogames que nos auxiliem a ter mais destreza, etc.

Mas, a instrumentalização das brincadeiras remove o caráter democrático, criativo e lúdico que toda brincadeira tem e as transforma em um trabalho.

A título de formar adultos de melhor performance, capazes de resolver situações e problemas específicos de uma sociedade já concebida e moldada sobre determinados valores, remove-se aquilo que é mais próprio do brincar infantil: a espontaneidade.

Isto é, quando o controle reiterado as impede de fruir sem obrigações e de explorar a criatividade, conforme lhes pareça mais adequado, estamos colaborando para cercear seu direito fundamental de brincar e se divertir.

O Artigo 16 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, diz que a criança e o adolescente têm direito de “brincar, praticar esportes e divertir-se”.  

Brincar enquanto linguagem da infância

Cada criança cresce em um entorno e rodeada de um repertório cultural.

Podemos dizer que elas são muito diferentes entre si, e suas experiências sociais variam com relação ao seu território, sua época, o clima, as regras culturais, etc. Suas brincadeiras, portanto, também variam. Ainda assim, elas trazem muitos elementos comuns, que as definem como crianças: entre elas, a linguagem lúdica.

O reinado da infância, esse país das maravilhas, é um labirinto, em que as crianças reinam. O brincar, essa linguagem infantil por excelência, é um espaço de potência para explorar a novidade e outros caminhos. Para conhecer, fazer conexões inovadoras, fantasiar com possibilidades e alimentar utopias.

O lúdico é um meio de expressão para a criança, ou melhor, o seu meio de expressão fundamental; expressão simbólica de experiências e desejos.

Claude Geets, 1977.

A interação própria da criança com o elemento lúdico permite aceitação ou negação da realidade, elaboração do que lhe acontece, recursos para agir no mundo, desenvolvimento do mundo simbólico e das emoções e, mais crescida, até reflexões conscientes sobre as situações experimentadas para resolução de conflitos.

Cultura das infâncias e democracia

Respeitar as crianças, portanto, passa por respeitar suas linguagens e, com elas, aprender.

Exercer esse valor democrático é respeitar a qualidade infantil. Como ensina Paulo Freire, nos ensinamos em comunhão.

Requer portanto, de nós adultos, reconhecer que a criança não é algo “ainda a se tornar”, que nada sabe ou conhece, ou então, um adulto incompleto, o qual devemos o tempo todo preparar para o futuro e o que virá.

A criança é um ser que já está sendo, em sua completude. Respeitá-la em sua inteireza, é um devir democrático de respeito ao outro. E, portanto, respeitar suas linguagens e, logo, as escolhas que fazem ao brincar, também é.

Além disso, as crianças trazem um olhar de novidade para o mundo. Elas estão, a todo tempo, nos convidando com muito entusiasmo e paixão a olhar para o mundo a partir das suas lentes. A ver o mundo com outros olhos, e não com os nossos tão acostumados e tão racionais.

A brincadeira é uma dessas lentes.

Talvez, mais válido do que, a todo tempo orientar, conduzir a finalidades específicas, ou impedir certas atividades e escolhas, possamos passar a observar e absorver mais.

Uma boa atitude pode ser analisar e estudar as práticas lúdicas das crianças depois de ocorridas – investigando aquilo que nós aprendemos sobre elas e sobre o mundo que elas veem, enquanto elas brincavam e se divertiam distraidamente.

Limitar brincadeiras: reforço aos preconceitos

Um desses ensinamentos preciosos é a capacidade da criança de ser aquilo que quiser e explorar o entorno e os objetos para além de suas pré-definições e finalidades concebidas por nós.

Por exemplo, um graveto é apenas um graveto. Mas, na mão de uma criança, pode ser uma espada e ser também uma varinha mágica ou uma caneta. Assim como uma bola pode ser para chutar, para arremessar, para apertar, sentar, amassar, jogar, pintar, etc. Uma boneca pode ser uma irmã, uma filha, uma amiga, uma mãe.

O lúdico é, portanto, um conteúdo de infinitas possibilidades.

Quando nós sobrepomos nossas premissas e valores rígidos sobre esses contextos, estamos contribuindo para impedir que a criança explore sua imaginação e sua criatividade, e se relacione com aquele conteúdo da forma mais coerente para si – em confiança e segurança de existir e de ser.

Estamos limitando até onde devem e podem sonhar.

Por vezes, nós adultos, inserimos também nossos preconceitos de gênero, de raça, de classe, de sexualidade, de capacidade, a partir de como reagimos às suas brincadeiras – as vezes, até limitando-as.

Limitações que impomos às brincadeiras infantis

Por insegurança ou desconhecimento, acabamos determinando como a criança vai interagir com aquele conteúdo, e impedindo o caráter espontâneo da interação da criança.

Crianças podem desejar ser papai, ser mamãe, ser um cachorro, ser um leão ou ser um alienígena, e isso não as fará necessariamente ser qualquer uma dessas coisas: se tratam de fantasias que as ajudam elaborar e significar suas próprias experiências (além do uso do corpo e da cognição, etc).

O mesmo vale para os objetos: para uma criança, uma boneca não é algo destinado a um gênero de antemão. Além disso, pela boneca ela pode explorar infinitas possibilidades: aprender a segurar, manusear peças pequenas, cuidar de si mesma, elaborar sobre o cuidado dos pais com ela, projetar formas de cuidar, memorizar nomes, de desenvolver afetos, estabelecer uma transição entre seu mundo interior e o exterior (Winnicott, 2023), etc.

É somente após o discurso (verbal e não-verbal) frequente e corriqueiro, delineando que aquela brincadeira “é” ou “não é” para aquela criança, por razão A ou B, que ela assimila essas premissas. E, então, se sente pressionada a abandonar a qualidade exploratória e criativa de interagir com aquele brinquedo ou brincadeira.

Uma boneca se torna “uma boneca somente de menina”. E de uma “menina que está praticando para ser mãe“.

Outro exemplo: a inexistência de bonecas negras, com cabelos crespos, em seu rol de opções de bonecas, ou de bonecas brancas sempre magras e maquiadas, pode reforçar a mensagem de que apenas um determinado tipo de expressão de feminilidade existe.

As vezes, adultos fazem uma qualificação de uma boneca ser mais ou menos bonita, a partir de aspectos raciais, por meio de comentários preconceituosos. O mesmo vale para comentários de valor sobre um carrinho mais caro ser melhor que um carrinho feito de materiais recicláveis.

Esses exemplos podem ser aplicados a muitas outras coisas: brinquedos que tem uma cor rosa, que são para meninas especificamente; azul, para meninos. Princesas como algo específico das meninas; e objetos de luta, de meninos. Bombeiro, sempre menino, cozinheira, menina, etc.

Adultos vão moldando e formatando o brincar.

Mas, a verdade é que na brincadeira, não há limites para a imaginação.

Se nela um menino é uma fada madrinha, ele está ali incorporando relações que não precisam necessariamente dizer respeito ao gênero da fada madrinha e às nossas concepções assimiladas em filmes da Disney.

Pode essa fada ser um espírito da natureza? Ou uma luz divina, sobrenatural? Pode ela ser a expansão do ser para além do que existe?

Quem sabe o menino ainda deseje ser a fada porque quer explorar a magia, o poder, o cuidado, o faz de conta, a beleza, o sublime, o inexplicável, e tantos outros elementos e aspectos que compõem a ideia que incorpora quando pensa numa fada e quer ser uma fada na fantasia.

Não implica, necessariamente, que essas experiências terão relação direta com sua orientação ou expressão de sexualidade na vida adulta.

Não cabe a nós nomear e limitar as possibilidades de uma brincadeira.

Encontrando saídas para o brincar ser exercício de liberdade

O que, então, nos cabe?

Nos cabe convidar as crianças à criação e inovação, próprios da infância e de seu olhar de novidade sobre o mundo.

Cabe a nós favorecer o jogo simbólico, garantir objetos variados (estruturados ou não) e atividades que estimulem sua imaginação, seu corpo, seus movimentos, seus ritmos. Que elas brinquem, explorando seus limites, sem correr riscos graves, mas desafiando suas possibilidades. Que elas explorem suas emoções, a frustração, o planejamento – neste caso, especialmente quando forem maiores.

Cabe aos adultos responsáveis pelo seu cuidado variar as ideias, recuperar saberes antigos, trazer novas concepções que fogem ao que ela está acostumada pela cultura estritamente familiar, permitindo a expansão de seus horizontes e criação novos elos com realidades diferentes da que está acostumada. Dar espaço para o ajuste, a mudança, as novidades.

Cabe a nós não impedir que elas criem um mundo totalmente novo, livre de preconceitos de tantas ordens.

Cabe a nós não limitar as inúmeras ideias que elas podem ter a partir do brincar livre.


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